Sobre João de Deus

 

JOÃO DE DEUS (1830-1896)

 

 

João de Deus Ramos nasce a 8 de Março de 1830, em São Bartolomeu de Messines, filho de José Pedro Ramos, comerciante, e de Dona Isabel Gertrudes Martins.
A primeira instrução recebe-a em casa, com a mãe, facto que se revelará fundamental, anos mais tarde, na elaboração da Cartilha Maternal, cujo método criativo caracteriza-se - de uma forma que parece natural e simples - em ensinar a ler ( e, ao ler, a escrever ) o português...
"Nos seus versos aprendi a amar Portugal; na sua Cartilha Maternal aprendi a ler português e ensinei os meus filhos a lerem", escreve a Rainha Dona Amélia.
Após ter estudado no Seminário, finaliza os preparatórios e ingressa na Faculdade de Direito, em Coimbra.
A sua formatura, como ele próprio, pitorescamente, refere, levou dez anos, como a guerra de Tróia, finda a qual, deixa-se ficar por Coimbra, no meio estudantil, tertuliante e boémio.
Questões familiares e o pouco dinheiro, fazem-no, em 1862, voltar ao Algarve. O seu espírito rebelde, porém, transvia-o para Beja, onde permanece durante dois anos, ocupado na redacção de "O Bejense.

Regressa, finalmente, a São Bartolomeu de Messines e a novas tertúlias, em Silves, em casa de José António Garcia Blanco que, em 1869, com Domingos Vieira, convencem-no a disputar a eleição a deputado às Cortes. É eleito pelo círculo de Silves, o que, contrariado, obriga-o a fixar residência em Lisboa. A política não o fascina. É raro aparecer na Câmara, onde se mantém durante uma legislatura, por consideração aos amigos.
Prefere o cavaqueio do Café Martinho.
Casa-se tarde, com Dona Guilhermina Battaglia de quem tem cinco filhos - dois rapazes e três raparigas - sendo forçado a abandonar a vida de então.
É nomeado e contestado Comissário Geral do Ensino da Leitura, segundo o método, declarado nacional, de que é autor, a Cartilha Maternal.

Poeta, de excelência, jornalista, em passagem, pedagogo, por amor, político, ao acaso...

Estudamos e com ele, dia após dia, aprendemos.
Mas, hoje, é hora de dar voz a alguns dos seus pares, a fim de revisitar o poeta, deixando o jornalista para os entendidos, o pedagogo para os eruditos, e, o político para os mais interessados...

"João de Deus desce mais fundo na indagação do sentido oculto da existência e sobe mais alto, ao mesmo tempo para enfrentar como raros poetas portugueses o têm feito a essência imutável de todas as coisas" - escreve David Mourão-Ferreira.
"Como ele próprio me confiou muitas vezes, teve sempre o hábito de compor mentalmente, sendo moroso na composição, emendando e alterando amiúde o que fizera, e não escrevendo o que ideara, senão quando julgava ter alcançado a forma definitiva" - afirma Eugénio de Castro.
De facto, algumas cartas e poemas seus, assim como o escrever e/ou desenhar, em diferentes suportes, um pouco por qualquer lado, comprovam-no, como fá-lo o cuidado colocado na correcção e revisão da edição de Campo de Flores, relatado por Teófilo Braga, no prefácio da 2ª edição.
E o Dr. Joaquim Magalhães comenta - "A simplicidade da poesia de João de Deus é o resultado de um trabalho de aperfeiçoamento que, em minha opinião, dá muito mais valor à obra (...) É o trabalho de apuramento para atingir a perfeição que nos dá a impressão de espontaneidade e de simplicidade".
Indiferente a escolas literárias, o poeta messinense mantém-se, atavicamente, ligado à sua verdade, simples, ardente, encantada e elevada. Os temas fundamentais da sua lírica são Deus e a Mulher, o Transcendente e o Erótico.
A sátira, trabalhada nos seus últimos anos de Coimbra, tenta-o, como as fábulas, sem, todavia, atingirem o nível do seu lirismo.
A poesia de João de Deus, distante do erotismo piegas e pretencioso, e, dos ideais filosóficos, científicos e revolucionários que caracterizam a obra dos Ultra Românticos, expande-se em sensualidade e veneração, porém, ingénuas e frescas, e o desejo, várias vezes presente nos seus versos, reveste-se de pura naturalidade.
João de Deus também hesita, interroga e duvida, mas logo renasce, para voltar a acreditar... no povo... de onde vem e para onde regressa, sempre, como poeta. Popular e nobre...
"Popular, porque é apreciado por pessoas de um vasto espectro sócio-económico e cultural, desde as mais eruditas às que não lograram atingir esse patamar de conhecimento" - reconhece o seu bisneto, António Ponces de Carvalho.
Em 1868, José António Garcia Blanco colige as suas poesias sob o título Flores do Campo, cuja 2ª edição sai, no ano seguinte, no Porto, sendo, do mesmo ano, a colectânea Ramo de Flores.

Em 1893, Teófilo Braga edita, tudo o que o poeta havia disperso, em Campo de Flores, cuja nova edição, saída em 1896, ainda começou a ser revista por João de Deus.
No dia 8 de Março de 1895, Estudantes de Lisboa, Coimbra, Porto, Santarém, Braga, Lamego e Portalegre, Representantes da Imprensa Portuguesa, o Povo anónimo e as Crianças, muitas crianças, manifestam-se junto a sua casa, na Estrela.

É proclamado sócio honorário pela Academia Real das Ciências e pelo Instituto de Coimbra.

No dia 9, após nova manifestação, segue-se um sarau no Teatro D. Maria, a que assiste Dom Carlos. Em apoteose, o Poeta sai da sala sobre as capas dos Estudantes que o levam a casa puxando o trem, desatrelado.
João de Deus falece a 11 de Janeiro de 1896, tendo o seu funeral sido uma nova manifestação nacional, ora de pesar. Sepultado, inicialmente, nos Jerónimos, foi, depois, transladado para o Panteão Nacional.
"Se há paixões infantis, eu posso dizer que para mim João de Deus foi uma secreta e grande infantil paixão. Toda aquela mansidão era beleza, força mágica de que eu não sabia dar o nome, e aprender a ler foi como que o aprender a amar" - regista Matilde Rosa Araújo.