Na Revista "Nova Águia"

Na esteira do que foi feito pela Revista "A Águia", a Revista "Nova Águia" (www.novaaguia.blogspot.com) irá publicar, nos seus próximos números, uma série de textos sobre João de Deus.

Iniciamos essa série com um texto de Manuel Ferreira Patrício, a ser publicado no nº 9 da "Nova Águia" (1º Semestre de 2012):

 

Manuel Ferreira Patrício

APONTAMENTOS SOBRE JOÃO DE DEUS PEDAGOGO

 

Não ganhou grande nomeada no palco europeu e internacional da Educação o nosso País, até aos dias de hoje. Todavia, a consideração mais atenta dos nossos esforços em prol da educação das nossas gentes mostra que alguma coisa de positivo fizemos ao longo da nossa história com merecimento. Não temos, por enquanto, uma história geral da educação portuguesa que se imponha pela perspectiva adoptada (mau grado a indiscutível qualidade da obra de Rómulo de Carvalho), pela riqueza das fontes reunidas e compulsadas, pela hermenêutica ampla a que a educação obriga, pelo equilíbrio entre o que René Hubert, na sua História da Educação, entendeu ser o domínio dos factos e o que entendeu ser o domínio das ideias, na sua íntima e dialéctica relação. Mas possuímos já um acervo notável de obras valiosas sobre o assunto e as nossas instituições de ensino superior — e mesmo escolas do ensino básico e secundário — estão guarnecidas em número significativo com docentes e investigadores academicamente qualificados tanto no espaço cultural em geral como no espaço específico da história da educação. A este respeito, a situação cultural portuguesa deu passos significativos nas últimas décadas. Sem qualquer preocupação de exaustividade, devem ser mencionadas algumas figuras que se destacaram pela obra e ideias produzidas: Joaquim Ferreira Gomes, A. Banha de Andrade, Alberto Ferreira, Joaquim Veríssimo Serrão, Rogério Fernandes, Áurea Adão, Rómulo de Carvalho, Pinharanda Gomes, António Nóvoa, Ana Teresa Santa-Clara, Jorge Ramos do Ó, João Barroso, Sara Marques Pereira, António Gomes Ferreira, Justino Magalhães, Paulo Guinote... Não se pode dizer que não tenha até agora sido objecto de atenção, no espaço da história da educação, a figura de João de Deus. O que se me afigura é que o João de Deus pedagogo é merecedor, pela sua intervenção pedagógica no mundo real da educação, de mais atenção. Não pude, na presente circunstância, dispor de tempo e condições para um pouco neste sentido me debruçar sobre ele. Mas aceitei a solicitação que me foi feita pela Nova Águia para alinhavar uma breve referência ao nosso romântico poeta-pedagogo. Tendo embora reunido uma quantidade apreciável de elementos para a elaboração de um pequeno artigo, acabei por entender que era mais indicado aguardar por momento pessoalmente mais favorável e limitar-me por agora a esboçar uns escassos apontamentos sobre a dimensão pedagógica de João de Deus. Nasceu o poeta em 1830 e faleceu em 1896. Natural de S. Bartolomeu de Messines, estudou na Universidade de Coimbra, onde acabou por formar-se bacharel em Direito. Nesses anos e nessa circunstância notabilizou-se realmente foi como poeta lírico, de veia romântica pura e singela, de grande e cativante beleza. A sua biografia é conhecida, pelo que me absterei de me demorar sobre ela. O que importa referir é a sua entrada no universo da luta pela alfabetização das crianças portuguesas com a criação da sua obra Cartilha Maternal ou Arte de Leitura, aparecida em 1876. A educação, e em particular o ensino das primeiras letras, constituíam na época uma preocupação funda dos intelectuais, dos políticos e dos publicistas, empenhados todos na construção de uma sociedade mais justa e democrática, em que o saber e as luzes — ainda na senda aberta por Immanuel Kant — fossem facultados a todos. João de Deus não teria ainda ouvido falar de Jan Amós Coménio, o morávio Jan Amós Coménio, um hussita genial, cujo programa pan-pédico, de educação universal, se sintetizava no quadrinómio omnes, omnia, omnino, semper (todos, tudo, de todas as maneiras, sempre). Mas já tinha conhecimento de Jean-Jacques Rousseau e da sua revolucionária obra Émile, que deu origem ao que veio a ser o Movimento da Educação Nova, ou da Escola Nova, importante

em Portugal, na Europa e no mundo na parte final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Sabemos que seguiu e admirou a figura de Pestalozzi, o educador que resolveu pôr em prática as ideias expostas por Rousseau no Emílio. Uma outra figura fundamental da mesma linha de pensamento e sensibilidade pedagógica foi Froebel, de que João de Deus teve conhecimento e em cuja orientação se inseriu. A Cartilha Maternal ou Arte de Leitura representava, pois, uma novidade entre nós. Sobretudo pela atenção carinhosa dada à criança portuguesa, sem esquecer a novidade já antes trazida por António Feliciano de Castilho com o seu método de ensino da leitura que veio a chamar-se Método Castilho, ou Método Português. Diremos que ambos trouxeram algo de importante à própria espiritualidade e identidade portuguesas. Na verdade, os povos são rostos singulares da humanidade. O rosto da humanidade é feito destas singularidades. Não há, pois, contradição ontológica entre os rostos constitutivos da humanidade. O que pode haver é, tão-só, dificuldade ou contradição praxiológica. O que queremos que haja, eis a verdade, é a harmonia universal dos rostos. João de Deus viu e viveu essa harmonia no cristianismo português, tal como o entendeu. Deputado socialista às Cortes, colocado por influência dos seus amigos, que o queriam ajudar, mesmo materialmente (ele carecia de ajuda), esse é o sentido do seu socialismo, que ele viu como a realização natural do cristianismo. No tocante concretamente à educação, o essencial é que ele amou a criança — a criança na criança, a criança no homem feito, a criança no idoso, a criança no que parte para a eterna infância. A Cartilha Maternal, diziam os seus adversários, não tinha base científica. Perguntemos, com a ingenuidade de João de Deus: a natureza tem base científica?; ou é a ciência que tem base natural? O acolhimento que a Cartilha Maternal de imediato encontrou no povo português foi o acolhimento da flor, dos ribeiros, dos pássaros; foi o acolhimento da irmã-natureza. A natureza não tem origem científica. João de Deus sabia, ou achava, que tinha outra, transnatural. Ainda bem que os políticos seus amigos só o meteram na política para o proteger materialmente, a si e sobretudo aos seus filhos. Perceberam que ele era um universo-outro, incorruptível. Um dos seus filhos, João de Deus Ramos, soube dar organização institucional à sua intuição pedagógica, aquela que se abriu em luz na grande criação instintiva que foi a Cartilha Maternal. Essa organização é uma das mais originais construções pedagógicas portuguesas: começou por ser o Movimento das Escolas Móveis, ainda no século XIX (por iniciativa de Casimiro Freire), é hoje toda a rede institucional, complexa e diversificada, que vai do jardim-escola à Escola Superior de Educação João de Deus, trabalhando infatigavelmente pela criança portuguesa, pela criança universal, pelo ser humano em toda a idade e em todo o lugar. A obra magna de João de Deus não é, em rigor, o Campo de Flores da sua produção poética, é o Campo de Flores da sua obra de formação humana, de poiesis humana, que é a transcensão paidêutica do trabalho poético das palavras. Esse é o verdadeiro Campo de Flores. Leonardo Coimbra disse do povo português, em uma página de A Alegria, a Dor e a Graça, que é o nosso um povo "modesto e vagaroso". A este duplo qualificativo correspondeu sem mácula João de Deus, o poeta do amor. Ou era assim o nosso povo; ou foi. Estamos talvez em hora de pagar o preço da vaidade, do orgulho, da precipitação ávida, em tudo. Como um farol aceso no olho da tempestade oceânica, é talvez o momento certo para olharmos para a luzinha que persiste em brilhar na tempestade apocalíptica. Essa luz diz: amemos o nosso irmão humano, deixemo-lo ser, apelemos a que seja, a que seja quem é, a que seja um discípulo na língua de Camões, que é a de João de Deus, aquela que queremos que ele aprenda e com ela fale à Natureza, ao Universo, a Deus. Este é o segredo escondido, mas no fundo bem visível, na Cartilha Maternal ou Arte de Leitura de João de Deus.

A intenção que me animou ao longo dos apontamentos que tenho vindo a alinhavar é a de ir lançando alguma luz sobre o João de Deus pedagogo. É essa mais ou menos a ideia que dele nos deixa Manuel Ferreira Deusdado na sua bela obra Educadores Portugueses, editada no final do século XIX, na mesma atmosfera em que viveu e emergiu como pedagogo João de Deus o poeta. De facto, o perfil do poeta vem a manifestar-se e afirmar-se como o de um pedagogo, aquele que considera ter algo a ensinar às crianças, aos jovens e aos seres humanos em geral; que considera encontrar-se em condições de, pela sua acção pedagógica, levar os outros a aprender. Foi neste contexto que elaborou e lançou a Cartilha Maternal ou Arte de Leitura. A palavra assinala aqui exactamente o lado prático do acto de ler ou de levar o outro a ler. A ler e a escrever, evidentemente. João de Deus foi, pois, e quis ser, um pedagogo, não um cientista da educação; ou um engenheiro da educação. Também não quis ser um pedagogista. Na linguagem da época em que viveu e interveio pedagogicamente, o pedagogista era entendido como o conhecedor, o especialista, em pedagogia. Ele não o era, nem pretendia sê-lo. Ele pretendia apenas servir o combate ao analfabetismo das crianças e jovens portugueses e — como o seu filho João de Deus Ramos claramente veio a entender — o povo analfabeto português em geral. A sua Cartilha Maternal aparece como instrumento para servir esse intuito. Atacado a dado passo pelas hostes positivistas — por exemplo, por Amaral Cyrne —, que denegriam a sua Cartilha por não verem nela base científica, ele defendeu-se denodadamente como pôde, mas a força do seu método não tinha as raízes na ciência, mas na intuição e na própria vida, que era o livro que ele lera, e lia, para tornar mais fácil a aprendizagem da leitura e escrita. Esse enraizamento na própria vida é declarado na primeira linha do texto que introduz e apresenta a Cartilha Maternal. Eis o que lá se encontra escrito: "Este systema funda-se na lingua viva." (Cartilha Maternal ou Arte de Leitura por João de Deus, Porto, Typ. de António José da Silva Teixeira, 1876). Logo prossegue: "Não apresenta os seis ou oito abecedarios do costume, senão um, do typo mais frequente, e não todo, mas por partes, indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que se digam, que se ouçam, que se intendam, que se expliquem; de modo que, em vez do principiante apurar a paciencia numa repetição banal, se familiarisa com as letras e os seus valores na leitura animada de palavras intelligiveis." A novidade do método é rematada deste modo: "Assim ficamos livres do syllabario, em cuja interminavel serie de combinações mecanicas não ha penetrar uma idéa!" O seu método quer justamente o contrário: que as ideias, abundantemente, penetrem no cérebro das crianças. Como acontece com as crianças que frequentam a escola da vida. "Porque razão — diz — observamos nós a cada passo nos filhos da indigencia meramente abandonados á escola da vida uma irradiação moral, uma viveza rara nos martyres do ensino primario?" Lembro-me, a propósito, de uma das conclusões a que, nos idos de 40/50 do século passado, chegara Pedro Painho na sua tese de licenciatura em Histórico-Filosóficas: os testes psicológicos haviam posto à vista que a criança portuguesa chegava ao final do ensino primário com menos curiosidade do que a que evidenciava à entrada. Pestalozzi chegara ao conhecimento e ao coração de João de Deus. Também ele achava que, na educação das crianças, as mães eram (são) fundamentais. A elas dedica a sua Cartilha: "Ás mães, que do coração professam a religião da adoravel innocencia e até por instincto sabem que em cerebros tão tenros e mimosos todo o cansaço e violencia póde deixar vestigios indeleveis, offerecemos neste systema profundamente prático o meio de evitar a seus filhos o flagelo da cartilha tradicional." As mães eram fundamentais no sentido positivo e no sentido negativo: as mães e os mestres (professores). Lemos na página IV, antes de tudo, estas palavras de Ambroise Rendu (Filho), em epígrafe, traduzidas pelo poeta autor da Cartilha: "As sementes do bem e do mal, quem as lança no mundo quasi todas, são as mães e os mestres."

Segue-se a Cartilha Maternal, lição a lição, num conjunto de 25 lições. Cada lição é antecedida da fundamentação do pedagogo-poeta, na qual está bem patente a sua experiência intuitiva e criadora da língua portuguesa. Lembro aqui a observação que um dia, no Café Águias d'Ouro, em Estremoz, me fez com a devida ênfase esotérica António Telmo, dizendo-me que o segredo da Cartilha Maternal era a Cabala, onde João de Deus bebera. Ele o saberia, eu o não sei, mas conto o que me foi dito por alguém que sab(er)ia. Tenho os olhos postos, pregados, na vigésima quinta lição, leio o que vejo, e recordo irresistivelmente António Telmo a dizer-me o que me disse, a mim que fora professor do ensino primário, ensinara crianças da primeira classe e lera com natural curiosidade o livro Gramática Secreta da Língua Portuguesa, no que toca às letras do alfabeto hebraico tendo por explicador o autor da obra. Não deixo de observar, todavia, que o texto com que termina Cartilha Maternal é o poema Hymno de Amor, centrado no Deus-Menino, o Bom-Jesus, o Salvador. A companhia é o rouxinol. O canto salva.