João de Deus e Raul Xavier

 

O Poeta e o Escultor

Uma evocação

 

Maria Leonor Xavier

 

João de Deus: o “lírico suavíssimo”

Cartas de torna-viagem é o título de dois volumes de artigos de Eugénio de Castro, o primeiro publicado em 1926, e o segundo, em 1927. O escritor esclarece assim o título dos dois volumes:

«De torna-viagem se chamava antigamente aos vinhos generosos que, de Portugal exportados para o Brasil e não tendo lá encontrado colocação remuneradora, voltavam à pátria, onde as bocas e as narinas experimentadas neles surpreendiam considerável aumento das suas melhores e mais características virtudes, sabor e perfume. – […]. – As cartas que constituem este volume foram escritas em português para um dos maiores periódicos do globo, La Nacion, de Buenos Aires, e aí publicadas em espanhol. São cartas, pois, que como o vinho de torna-viagem, foram do Velho ao Novo Mundo, donde, depois de lá terem sido vertidas para a língua de Cervantes, voltam aos pátrios lares e aparecem em público na sua forma primitiva.»[1]

Nas suas cartas, escritas em Coimbra, o autor procura dar a conhecer Portugal à Argentina, através de pessoas e lugares da sua memória afectiva e cultural. Entre os portugueses evocados, contam-se os pintores Carlos Reis[2] e António Carneiro[3], o escultor Teixeira Lopes[4], o escritor Eça de Queiroz[5], e, em maior abundância, poetas, como Guerra Junqueiro[6], Cesário Verde[7], João de Deus[8] e Júlio Dinis[9]. Esperava Eugénio de Castro que a viagem de retorno a Portugal desse mais sabor às suas cartas, como acontecia com o vinho de torna-viagem. De facto, assim sucede hoje na nossa redescoberta dessas cartas cujo sabor se apurou ainda mais pela viagem de amadurecimento ao longo de muitas décadas. Adoptámos, por isso e em especial, a mediação da carta de Eugénio de Castro sobre João de Deus, para esta nossa evocação do autor da Cartilha Maternal. Trata-se de um testemunho vívido e afectivo de um poeta acerca de outro poeta, a quem conhecera e admirara pessoalmente, e que obtém, hoje, um sabor raro, tal como o vinho de torna-viagem, que nenhuma abordagem erudita ou académica pode repetir.  

A carta de Eugénio de Castro, intitulada “João de Deus”, data de Fevereiro de 1926 e assinala a efeméride dos 30 anos volvidos sobre a morte do poeta-pedagogo, ocorrida a 11 de Janeiro de 1896. Desse modo, o autor procurou contrariar o esquecimento da efeméride no Portugal de então, registando uma memória pessoal e abrangente do poeta nascido a 8 de Março de 1830 em S. Bartolomeu de Messines. Com efeito, Eugénio de Castro dá-nos um retrato de João de Deus a quatro dimensões: o poeta, o político, o pedagogo e o polemista.  

A primeira dimensão é a poesia e ter-se-á começado a manifestar nos seus tempos de Coimbra, para onde João de Deus foi estudar Direito em 1849 e onde permaneceu até 1862. Só em 1868 começou a publicar a sua poesia, nos livros Flores do Campo e, posteriormente, Folhas Soltas (livros que estão na base da antologia Campo de Flores, publicada em 1893). Deus e a Mulher são os motivos maiores da sua poesia. Eugénio de Castro escolheu alguns poemas de João de Deus para ilustrar a sua obra poética: desde logo, o poema “Adoração”, que diviniza a Mulher e sublima a sua atracção; o poema “Descalça”, que, em sentido inverso, canta a sensualidade da Mulher, reduzida pela pobreza aos seus dotes naturais; o poema “Boas Noites”, que canta a virtude da Mulher, numa lavadeira que resiste à sedução de um caçador; mas também, por outro lado, o poema “Militarão”, que exemplifica a poesia de humor, uma vertente não despicienda do poeta algarvio[10]. Por sua vez, a prosa poética de Eugénio de Castro sintetiza assim a personalidade do poeta:

«João de Deus, o lírico suavíssimo, que, cantando Deus e a Mulher, parecia elevar-se imponderavelmente da terra, como São Francisco de Assis pairando sobre as águas, e atingir as cumieiras onde chega o perfume dos rosais celestes, João de Deus aliava a um extraordinário poder de idealização uma agudeza, não menos extraordinária, de observação.»[11]

Estes traços de personalidade não se combinaram, porém, de molde a prover ao poeta uma carreira política bem sucedida no mundo real. De facto, foi curta e desencantada a passagem de João de Deus pela política, que Eugénio de Castro descreve assim:

«Em 1868, por iniciativa de alguns amigos, que muito esperavam da sua eloquência natural e abundante, foi João de Deus eleito deputado pelo círculo de Silves. A decepção que então sofreu, bem pode comparar-se à de um anacoreta, que, vindo da solidão ao mundo e querendo entrar num convento, entrasse por engano numa tavolagem. – João de Deus deixara-se eleger e aceitara o diploma de deputado, não só pelo espírito de condescendência com que passivamente procurava satisfazer todas as solicitações que lhe eram dirigidas, por mais estrambólicas que fossem, ficando muito pesaroso por não poder dar a lua, se alguém lha pedisse, mas também pela ingénua ideia que ele fazia da política e dos políticos, julgando que estes eram, sem excepção, inteligentes e incorruptíveis servidores da Pátria, e aquela uma augusta divindade sempre absorvida no bom governo da nação.»[12]

Foi, portanto, na década de 60 do séc. XIX, que João de Deus emergiu na vida pública, como lírico e deputado. Não o conhecera, nessa época, o poeta Eugénio de Castro. Quando este o conheceu, a meados dos anos 80, encontrou-o a viver com dificuldades, conforme denunciam pormenores peculiares da seguinte descrição:

«Quando o conheci pessoalmente, em Outubro de 1885, João de Deus, que já então tinha quatro filhos, vivia modestissimamente no primeiro andar duma casa do Alto do Penalva, tão acanhada, que a banheira familiar, não encontrando colocação noutro aposento, teve de ser instalada na cozinha, onde, para não estorvar a cozinheira, foi suspensa por uma corda, e içada no ar, como a lâmpada dum santuário.»[13]

Nessa época já a actividade poética de João de Deus havia cedido o passo à dimensão de pedagogo, como autor da Cartilha Maternal. Todavia, o novo método de leitura, que viria a substituir, em 1888, o Método Repentino, de António Feliciano de Castilho, em vigor desde 1853, não teve logo aceitação fácil, pois vinha alterar hábitos instalados na aprendizagem da língua. João de Deus teve, por isso, de sair à liça do debate público para defender o seu método de leitura, o que lhe valeu ainda a dimensão de polemista. Esta dimensão cumpriu-a o pedagogo também como poeta, através múltiplos epigramas satíricos, cuja subtileza levou o outro poeta, Eugénio de Castro, a dar a seguinte metáfora:

«Quando o atacavam, este rouxinol defendia-se briosamente com o seu biquinho afiado, cujas picadas não matavam mas contundiam.»[14]

O suplemento “letras e artes” do periódico Novidades, de 11/ 05/ 1941, recorda a polémica em torno da Cartilha Maternal, e reporta algumas palavras em prosa do poeta-pedagogo em defesa do seu método. Este considerava-o o autor tão intuitivo que a sua descoberta fora menos laboriosa do que a invenção da sua poesia:

«É natural e intuitivo. Nenhuns versos meus me levaram menos tempo do que este plano de ensino, nem podia levar.»; tão natural que: «Saiu-se com esta resposta a um amigo, que se mostrava admirado de que tão simples solução (a do seu método) não tivesse antes surgido em outra pessoa: – Então que quer você! Por estar muito perto do nariz é que não viam.»[15]

Sendo natural e intuitivo, o método poderia ter sido descoberto por outros, pelo que poderia não ser novo, mas era original, conforme o defendeu afincadamente o seu autor, porque este não o copiara de outro. Assim se posicionava João de Deus na questão da novidade e originalidade do seu método de leitura.

Finalizamos esta evocação, relevando três traços que vincadamente moldavam a personalidade de João de Deus, segundo o testemunho caloroso, mas não acrítico, de Eugénio de Castro: a “indolência, filha da abstracção contemplativa”; a larga generosidade; e a mansa fortaleza.

A “indolência”: «A sua indolência, filha da abstracção contemplativa, em que quase permanentemente se deleitava, tornou-se proverbial, e por ela se explica que o Poeta só ao fim de dez anos conseguisse alcançar a carta de bacharel formado, que então, como ainda agora, geralmente se conquistava, sem grandes canseiras, num lustro. A esse facto aludia João de Deus, dizendo que a sua formatura tinha durado tanto como a guerra de Tróia. – Havendo concluído os seus estudos, como gostasse de Coimbra, onde aliás nenhum motivo ponderoso justificava o prolongamento da sua permanência, e como o arranjo da sua mala lhe parecesse um negócio de dificílima solução, em Coimbra se deixou ficar, e aqui viveu mais três anos, até que, em 1862, saudoso dos seus, abalou para casa, mas fazendo tão lentamente a viagem que só lá chegou anos depois.»[16]. Após a breve experiência de deputado: «João de Deus fugiu do parlamento, mas, sempre escravo da indolência, em vez de regressar ao seu cantinho natal, onde a vida lhe seria mais fácil e mimosa, em Lisboa ficou e em Lisboa se enraizou tão profundamente, que nunca mais de lá saiu.»[17]

Filha da “indolência” proverbial de João de Deus foi a afeição com que ele se arreigou aos lugares que habitou, e que o tornou um coimbrão acidental e, por fim, um definitivo lisboeta.

A larga generosidade: «Uma vez, como eu o desafiasse para um passeio no jardim da Patriarcal Queimada, que ficava a dois passos da sua casa, e onde íamos a míude, João de Deus desculpou-se com a maior franqueza: – Hoje, não pode ser, porque estou sem botas.»[18]. As botas que tinha, tinha-as dado na véspera a alguém que lhe aparecera quase descalço.

A mansa fortaleza: «Fortalecido pela melhor das filosofias, a sua conformidade resistia mansamente à fatalidade das coisas, por mais desvairada que esta fosse»[19]

Se a larga generosidade do poeta era aquela misericórdia bíblica dos justos, se a sua mansa fortaleza era aquela sabedoria prática dos antigos filósofos, e se a sua proverbial indolência era aquela vocação contemplativa que prendia ao mosteiro e desprendia dos interesses mundanos os monges medievais: bem se pode dizer que João de Deus era um homem de outros tempos. Não queremos mitificar o poeta João de Deus, no reino da competitividade e da exclusão, que é o tempo contraditório que atravessamos. Através da escrita poética de Eugénio de Castro, quisemos apenas evocar o poeta que incarnou nobres ideais humanos e amou a língua portuguesa.

Ainda que tantas vezes esquecido, João de Deus não deixou de ter reconhecimento público, mesmo para além do seu próprio tempo. Dada a importância do poeta na nossa memória cultural, o Estado português erigiu-lhe o monumento que, sob concepção do escultor Raul Xavier, foi implantado na terra natal do poeta, S. Bartolomeu de Messines, em 1964.     

 

 

 

 

 

 

Raul Xavier: o “escultor da serenidade”

Por dois anos João de Deus e Raul Xavier partilharam o mundo dos vivos, uma vez que o escultor nasceu em 1894 (23 de Março), dois anos antes da morte do poeta. Todavia, não se cruzaram em vida, pois o poeta vivia em Lisboa quando o escultor nascia em Macau. Raul Xavier era filho e neto de portugueses que casaram com chinesas, provindo assim dos cruzamentos de sangue e de cultura que os portugueses assumiram com outros povos do mundo. Por isso, e mesmo depois de se ter tornado escultor português em Portugal, Raul Xavier foi um artista “lusófono”, podemos hoje dizê-lo, embora o termo não se usasse ainda no tempo da sua vida. Se, por um lado, o escultor nunca menosprezou as suas raízes orientais, por outro lado, foi na cultura portuguesa que se formou e para ela contribuiu ao longo de toda a sua carreira artística. A sua personalidade e a sua obra não podem, por isso, deixar de fazer uma síntese singular de culturas distintas, no horizonte mais universal da lusofonia.

Os laços com o Oriente emergem, desde logo, naquela que é considerada a sua primeira obra: o busto de sua mãe macaense (gesso, 1911). Já casado e com dois filhos pequenos, Raul Xavier regressou à sua terra natal para desempenhar um cargo de condutor de obras públicas na construção do porto de Macau, função que desempenhou entre 1923 e 1925. Essa experiência de dois anos ter-lhe-á servido, sobretudo, para se aperceber de que a sua vocação não estava na administração pública, mas antes no ofício de modelar. Regressado e estabelecido em Lisboa, já com obra feita e reconhecida, o escultor não deixou, porém, de manifestar apreço pelas suas origens macaístas, como ilustra o facto de se apresentar com um costume tradicional chinês na fotografia que serviu de base ao retrato a óleo que dele fez o seu amigo pintor Domingos Rebelo. Podemos mesmo dizer que uma contida saudade do Oriente se faz sentir em obras significativas do escultor, como ilustram: a nostálgica “Fantasia oriental” (placa, 1926), que nos dá um perfil feminino com trança, e que nos toca mais por uma estranheza com ternura do que por algum padrão convencional de beleza; ou a estatueta de Wenceslau de Moraes (1939), vestido de quimono segundo fotografia da época, o que permitia sublinhar a japonização do militar e escritor português.   

Mas, se Wenceslau de Moraes foi um português que se apaixonou pela cultura nipónica, que o tornou escritor, Raul Xavier foi um macaense que se afeiçoou decisiva e definitivamente à cultura portuguesa, que o tornou escultor. Com efeito, ainda menino de 3 anos, Raul Xavier veio de Macau para Lisboa, onde teve a sorte de encontrar, para as primeiras letras na escola do Altinho[20], um genuíno pedagogo, o mestre Palyart Pinto Ferreira, que descobriu uma vocação artística nos desenhos daquele seu aluno. Concluída a instrução primária, Raul Xavier continuou a ter o estímulo e o apoio do professor, que lhe financiou o curso geral de desenho, de três anos, na Escola de Belas-Artes, sabendo que o pai do jovem, um humilde soldado com família numerosa, não tinha condições para sustentar a formação artística do filho. Foi, pois, o mestre Palyart Pinto Ferreira, o grande impulsionador de Raul Xavier para as artes plásticas. O escultor nunca o esqueceria, como o atestam quer a sua colaboração na ilustração de escritos pedagógicos do seu antigo mestre quer a medalha que o homenageia e o faz perdurar na nossa memória cultural[21]. Foi ainda a pedido do mestre, admirador de João de Deus, que o jovem Raul modelou um busto do ilustre pedagogo para a Casa Pia, onde Palyart Pinto Ferreira também leccionava. Com a sua obra primeva sobre João de Deus, inicia Raul Xavier o seu percurso na escultura, antes mesmo de se tornar escultor.       

Após o curso geral de desenho, Raul Xavier começou a sua formação escolar em escultura, na aula de Costa Mota (tio), então membro do Conselho de Arte e Arqueologia e posteriormente preterido em concurso público, a favor de Simões de Almeida (sobrinho), para a disciplina que leccionara provisoriamente, por doença do antigo docente[22]. Com a saída de Costa Mota (tio), Raul Xavier seguiu o mestre e deixou a Escola de Belas Artes, não chegando a concluir o curso de escultura. Deste modo, o jovem estudante de escultura emancipou-se da Escola e continuou informalmente a sua formação no atelier do mestre Costa Mota. O valor da fidelidade pessoal primou sobre o da instituição escolar, o que revela um traço de carácter do futuro escultor. Julgamos, por isso, ser fiéis à memória de Raul Xavier, dizendo que os dois mestres da sua vida e arte foram Palyart Pinto Ferreira, nas primeiras letras, e Costa Mota (tio), na escultura. Ambos foram também, por isso mesmo, os dois grandes elos afectivos do escultor com a cultura portuguesa.   

 

 

 

Ultrapassada a experiência de dois anos de administração pública em Macau, Raul Xavier estabeleceu-se definitivamente em Lisboa, onde se tornou professor da Casa Pia e mestre de canteiro artístico da escola de António Arroio, e onde se devotou incansavelmente ao seu ofício de modelar até à sua morte em 1964. O escultor Raul Xavier dedicou grande parte do seu labor artístico a modelar figuras relevantes da cultura portuguesa, e, desse modo, a guardar memória delas, material e cultural. Desde logo, referências contemporâneas ou próximas do seu tempo, e das mais diversas áreas do engenho humano, como sejam: o caricaturista e ceramista Rafael Bordalo Pinheiro (busto, 1917); o médico Fernando Bissaia Barreto (busto, 1933); o filólogo e etnólogo José Leite de Vasconcelos (placa, 1934, estatueta, 1942, e medalha, 1948); o historiador Joaquim de Oliveira Martins (placa, 1935); o professor de literatura e ensaísta Fidelino de Figueiredo (busto, 1937); o artista-fotógrafo Manuel Alves de San-Payo (busto, 1944); o pintor Carlos Reis (busto, 1945); o professor e historiador de filosofia Joaquim de Carvalho (estatueta, 1944, e busto, 1947); o matemático Gomes Teixeira (medalha, 1948); o violoncelista David Sousa (placa, 1948); o arqueólogo Santos Rocha (busto, 1953); a poetisa Florbela Espanca (busto, 1955); o pedagogo João de Deus Ramos (medalha, 1955), filho do poeta e pedagogo João de Deus; etc. Esta lista de obras, umas feitas de encomenda a propósito de homenagens e efemérides, outras não, pois tão somente feitas por estima de amigo, longe de ser exaustiva, é quanto basta para significar o apreço do escultor macaense pela cultura portuguesa do seu tempo. Raul Xavier conviveu com muitos daqueles dos quais fixou memória nas suas obras, e tornou-se um deles, tendo sido adoptado e reconhecido culturalmente como escultor português.

Entretanto, o escultor português de origem macaísta foi também um atento intérprete da escultura portuguesa do seu tempo, bem como das dominâncias do modo de ser português que nela se exprime. No seu artigo “A Escultura em Portugal nos últimos vinte e cinco anos”, publicado a 15 de Dezembro de 1948 no periódico Novidades, o próprio escultor Raul Xavier sublinha, como traço comum à personalidade do seu mestre, Costa Mota, e aos discípulos mais ousados do mestre Simões de Almeida (sobrinho), algo como o lirismo português[23]. Este será também o traço dominante de união entre três vultos da história da cultura literária portuguesa, que atraíram o talento de Raul Xavier na sua produção escultórica: o poeta Luís Vaz de Camões, cujo busto (1931) se encontra instalado na Biblioteca da Universidade de S. Francisco da Califórnia; o escritor romântico Camilo Castelo Branco, ao qual o escultor dedicou vários tipos de trabalhos, como o busto, a estatueta e a medalha; o poeta e pedagogo João de Deus, que motivou o conjunto escultórico implantado na sua terra natal, São Bartolomeu de Messines, e inaugurado a 9 de Março de 1964, pouco tempo depois da morte do escultor, a 1 de Janeiro do mesmo ano. Uma obra madura sobre João de Deus marca, assim, o fim do percurso produtivo de Raul Xavier na escultura.

 

"Melancolia"

 

Para compreendermos o conjunto escultórico sobre João de Deus, porém, talvez não baste o lirismo português, que seduziu o escultor macaense. Talvez sejam necessários outros valores trazidos do Oriente no sangue de Raul Xavier. Um escritor e jornalista seu amigo, Carlos Sombrio, chamou-lhe o “escultor da serenidade”, especialmente a propósito da maqueta do monumento a D. Francisco Gomes do Avelar, em frente da Sé de Faro[24]. Com efeito, a serenidade é uma qualidade expressiva que domina em toda a estatuária monumental de Raul Xavier. Desde logo, as estátuas que personificam simbolicamente ideias nobres, como a “Arte” e a “Ciência” (1932, Palácio dos Desportos, Parque Eduardo VII, Lisboa), a “Prudência” (1935, Palácio de S. Bento, Lisboa), ou a “Lei” e a “Justiça” (1949, Palácio da Justiça, Beja), acusam uma hierática impassibilidade. Também no painel pétreo da batalha de Aljubarrota, “Alegoria a D. Nun’Álvares Pereira”, ao calor da batalha, sobreleva a harmonia da composição[25] e a postura vertical, firme e quase invulnerável, do herói a cavalo, Nuno Álvares Pereira. Mas é, sobretudo, nas pequenas figuras simbólicas, a que os críticos chamavam na época “figuras de fantasia”, que melhor se exprime a liberdade criativa de Raul Xavier[26], bem como as qualidades mais indissociáveis da sua escultura: entre elas, encontra-se mesmo uma “Serenidade” (1936), a par de uma “Saudade” (1932), de um “Pensamento longínquo” (1941) ou de uma “Melancolia” (1950). Todas estas ideias, estados ou sentimentos são representados por figuras femininas. Há, na escultura de Raul Xavier, uma espiritualidade no feminino, que denuncia uma delicada estima pela mulher. A este respeito, é de assinalar o parentesco anímico do escultor com o poeta João de Deus.

A escultura de Raul Xavier é, aliás, toda ela figurativa, e isso valeu-lhe a depreciação de “não moderna”, em comparação com a arte abstraccionista. Todavia, nem por isso se tornou mais fácil de caracterizar e de classificar do ponto de vista da crítica da arte. Em 1939, Luís Chaves procurava entrever assim influências e tendências na arte de Raul Xavier:

«Da serenidade olímpica da criação artística passa à violência insatisfeita da realização. Procurar-se-ia estremar na técnica de R. Xavier a influência de um outro mestre escultor. Em vão. Talvez impressionista aqui, visão de Rodin que se funde num momento; talvez classicista além, na majestade de Cánovas através de mármores de Thordwaldsen; realista porventura na lição portuguesa de Soares dos Reis. Talvez tudo, e de tudo um pouco, e não por espírito de formação ecléctica, feição inferior de impersonalidade; antes porque a arte é omnímoda, e na alma sincera do artista bem formado brota como fonte da montanha.»[27]

Afinal, impressionista, classicista e realista, mas não ecléctico. Por sua vez, em 1957, Émile Schaub-Koch procurava definir assim a novidade da arte de Raul Xavier:

«Xavier é um gótico da época flamejante, isto é, da época em que o gótico se enriquece com o arabesco, e com todas as riquezas do barroco que acaba de nascer em Veneza.»[28]

Afinal, uma arte fora do seu tempo, que combina tendências remotas. Estes dois testemunhos de crítica favorável ao escultor Raul Xavier ilustram bem, todavia, que, quando intenta rotular uma obra de arte pessoal, a crítica facilmente se enreda em contradições insanáveis nas suas apreciações. De qualquer modo, o especialista de estética comparativa, que foi Émile Schaub-Koch, compara por afinidade a escultura figurativa de Raul Xavier com a da escultora americana Anna Hyatt Huntington[29], e não é por ser figurativa que a arte de um e de outra é uma arte menor.

 

 

Figurativo é também o conjunto escultórico do monumento a João de Deus, em S. Bartolomeu de Messines. Raul Xavier adoptou, para o monumento, a iconografia espectável sobre João de Deus, ligada, sobretudo, à sua Cartilha Maternal. Olhando então para o monumento, o que vemos? Não do ponto de vista do crítico profissional, mas apenas com o olhar de um observador atento. Vemos a figura de João de Deus, sentada sobre a saliência de um muro, que lhe serve de banco: o pedagogo segura com a mão esquerda a sua Cartilha, erguida sobre o joelho esquerdo, e reclina-se levemente sobre o lado direito, com o cotovelo direito sobre o muro e a mão apoiando o rosto, que olha na direcção do horizonte acima de duas crianças ao lado a ler. Na figura de João de Deus, sobressai a tranquilidade, que procede de uma missão cumprida, e a serenidade contemplativa, que era um traço comum à personalidade do poeta e à do escultor. As crianças, por seu turno, não são um detalhe decorativo do monumento, elas estão praticamente no mesmo plano fronteiro do pedagogo, porque elas são a sua razão de ser. As crianças foram, aliás, um motivo predilecto do escultor Raul Xavier, que cedo começou a modelar a cabeça encaracolada do seu próprio filho e que tomou por modelo o seu neto mais novo para o menino que carinhosamente acompanha a pequena leitora, neste monumento a João de Deus. Há, neste conjunto escultórico, traços cruzados de serenidade e lirismo. Nada espanta por inesperado; tudo se combina sem sobressaltos na sensibilidade do espectador. Apenas o poeta em pensamento longínquo e duas crianças em atenta leitura, isto é, colhendo o fruto da sua intuição pedagógica, numa suave harmonia entre contemplação e acção, que não sobressai senão pela arte de composição do escultor. Era assim a escultura de Raul Xavier.

  

     "Pensamento Longínquo"

 

 


[1] Eugénio de Castro, Cartas de torna-viagem, Primeiro Volume, Lisboa – Porto – Coimbra – Rio de Janeiro, «LVMEN» Empresa Internacional Editora, 1926, pp.7-8.

[2] Idem, “Uma família de artistas”, in op. cit., Primeiro Volume, pp.123-139.

[3] Idem, “O pintor António Carneiro”, in Cartas de torna-viagem, Segundo Volume, Coimbra, “Atlântida” Livraria Editora, 1927, pp.35-45.

[4] Idem, “O escultor Teixeira Lopes”, in op. cit., Segundo Volume, pp.83-97. 

[5] Idem, “Os livros póstumos de Eça de Queirós”, in op. cit., Primeiro Volume, pp.273-283.

[6] Idem, “Sabugosa e Junqueiro”, in op. cit., Primeiro Volume, pp.9-21.

[7] Idem, “Cesário Verde”, in op. cit., Primeiro Volume, pp.87-102.

[8] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, pp.47-66.

[9] Idem, “Júlio Denis, poeta”, in op. cit., Segundo Volume, pp.177-187.

[10] Cf. Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, pp.54-60.

[11] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, pp.64-65.

[12] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, pp.58-59.

[13] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, p.61.

[14] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, p.64.

[15]Palavras do poeta-pedagogo, citadas em: M. Vaz Genro, “Polémica ruidosa. A Cartilha Maternal de João de Deus, julgada por alguns mestres da pedagogia”, Novidades (11/ 05/ 1941). Para este artigo, o autor consultou na Biblioteca Nacional os dois volumes – Cartilha Maternal e o Apostolado e Cartilha Maternal e a crítica – que haviam pertencido à Companhia de Jesus por oferta, respectivamente, de João de Deus (1º vol.) e do seu filho João de Deus Ramos (2º vol.).

[16] Eugénio de Castro, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, pp.53-54.

[17] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, pp.59-60.

[18] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, pp.61-62.

[19] Idem, “João de Deus”, in op. cit., Segundo Volume, p.61.

[20] Instalada no antigo palácio de Angeja, que fora residência do físico-mor do reino, no tempo de D. José.

[21] Como o atestam também as seguintes palavras de um amigo do escultor: «Meu caro Xavier: se a firmeza do seu carácter não me fosse familiar de longa data, bastaria a sua fidelidade constante à memória do seu primeiro professor para ma revelar. Fernando Alfredo Palyart Pinto Ferreira, logo na aula primária, descobriu-lhe a vocação artística e orientou com paternal entusiasmo os seus estudos no sentido dessa vocação. E o Xavier foi escultor, construiu a sua obra e alcançou renome, como se documenta nas publicações que têm sido consagradas a tal obra. E uma indissolúvel amizade gratíssima o prendeu para sempre ao professor modesto, mas inteligentíssimo que foi esse excelente Palyart.» Fidelino de Figueiredo, “Elogio de um nobre educador (Carta a um Amigo)”, Separata da Revista de Guimarães, vol. LXXI, nº 1-2 (Guimarães, 1961), p.1. Vd. uma fotografia da medalha de Raul Xavier, representativa do mestre Palyart Pinto Ferreira, ibid., p.3.

[22] Informação biográfica disponível em: Oldemiro César, Artistas Portugueses. Raúl Xavier – Escultor, Lisboa, 1943, pp.19-20.

[23] «Costa Mota, discípulo de Vítor Bastos, teve personalidade forte, a um tempo lírica de português, e criadora incisiva de estados de alma. – […]. – Simões de Almeida (sobrinho), por seu turno, transmitiu a sua arte a discípulos, que se têm distinguido nas correntes modernas, desde o neoclassicismo sereno e equilibrado, até às concepções irreverentes e ousadas em que todavia se manifesta sempre o lirismo da gente portuguesa, e frequentemente o apreciável sentido decorativo, que vem completar e formar ambiente sugestivo a este lirismo, talvez por vezes demasiado saudosista, mas evocador. São: Leopoldo de Almeida, Rui Gameiro, Barata Feio, Martins Correia, António Duarte, Anjos Teixeira (filho), etc.» Raul Xavier, “A Escultura em Portugal nos últimos vinte e cinco anos”, Novidades (15/ 12/ 1948).

[24] Cf. Carlos Sombrio, “Raul Xavier: o Escultor da Serenidade e o seu monumento ao Arcebispo-bispo Gomes de Avelar”, Jornal de Notícias, 30 de Novembro 1939.

[25] A “Alegoria a D. Nun’Álvares Pereira”, originalmente destinado e apresentado a forrar a Sala de Aljubarrota na Exposição do Mundo Português (1940) e posteriormente colocado em S. Jorge (Aljubarrota), é para o Prof. Émile Schaub-Koch, esteta e crítico de arte, a obra mais significativa de Raul Xavier, escolhida para figurar em: Émile Schaub-Koch, Valeurs de Rappels d’Esthétique Comparative, Lisbonne, Publication sous les auspices de l’International Institute of Arts and Letters, 1958, fig.109. A mesma obra será, portanto, uma daquelas que melhor manifesta o talento do escultor como mestre da composição: «L’energique vitalité de l’oeuvre est question tecnique et ne dépend pas du tout de la vision qu’elle exprime, et qu’elle pourrait exprimer de manières différentes et selon d’autres méthodes. Voilà ce que saisit à fond Xavier et ce que certes, en matière de composition, il connaît à fond. Et cette connaissance est celle d’un grand artiste.» Émile Schaub-Koch, Raul Xavier. Sculpteur Portugais, Lisboa, 1957, p.3.

[26] No que sintonizamos inteiramente com as seguintes palavras de Émile Schaub-Koch: «Il est évident que les plus belles oeuvres de Xavier ne sont que des valeurs de représentation de sa conscience d’artiste, telle sa Mélancolie, étonnante d’expression créée.» Raul Xavier. Sculpteur Portugais, p.6.

[27] Luís Chaves, “Raul Xavier. Escultor”, Letras e Artes, Suplemento literário das Novidades, Ano II – 4-VI-1939 – Nº41.

[28] «Xavier est un gothique de l’époque flamboyante, c’est-à-dire, de l’époque où le gothique s’enrichit de l’arabesque, et de toutes les richesses du baroque qui vient de naître à Venise.» Émile Schaub-Koch, Raul Xavier. Sculpteur Portugais, p.29.

[29] Cf. Émile Schaub-Koch, Valeurs de Rappels d’Esthétique Comparative, Lisboa, 1958, pp.116-122.